quarta-feira, 8 de junho de 2016

Afinal, a fosfoetanolamina cura câncer ou não?

Será que após 9 meses da nossa primeira publicação a respeito da “pílula do câncer” seus criadores conseguiram provar que a fosfoetanolamina realmente cura câncer?

Em setembro de 2015, publicamos aqui no E-farsas um artigo a respeito de um “novo” tipo de “medicamento” desenvolvido por um químico aposentado que prometia a cura completa de todo e qualquer tipo de câncer. Na época, nossa publicação – que explicava que a substância chamada de fosfoetanolamina sintética não parecia cumprir o que prometia – recebeu mais de 690 comentários (390 através do fomulário de comentários do site + 300 comentários feitos pela caixa de comentários do Facebook)!

Grande parte desses comentários foi de leitores raivosos por estarmos “tirando a esperança” de quem dependia desse “remédio”…

Pois bem, lá se foram 9 meses desde então e como o próprio criador da “pílula do câncer” não conseguiu provar que o seu remédio funciona, coube a outros pesquisadores a tarefa de testar a eficácia da fosfoamina sintética.

Os resultados desses testes? Acompanhe aqui no nosso resumão!
 

Será que a pílula do câncer funciona mesmo?
 
Funciona ou não funciona?
Em primeiro lugar, o pesquisador responsável pelo desenvolvimento da fosfoetanolamina sintética nunca conseguiu provar que suas pílulas realmente combatem o câncer. Nas diversas entrevistas que concedeu, o químico aposentado passou de ferrenho defensor da eficácia de seu “medicamento” (e aqui também) a um mero incentivador do uso da sua pílula apenas como um simples suplemento alimentar (e aqui também)!

Ou seja, nem mesmo o criador do método de sintetização da fosfoamina continuou acreditando no fator de cura da sua pílula do câncer… Ou achou mais seguro parar de afirmar que o seu “remédio” funciona mesmo, visto que ele estava a ponto de ser acusado de curandeirismo!

Mesmo sem provas de que a pílula do câncer funcione mesmo, seus desenvolvedores conseguiram liminares na Justiça para que continuassem distribuindo seus comprimidos a quem quer que seja, independente do tipo e/ou do grau de câncer do paciente.
  • A dosagem recomendada? Ninguém sabe!
  • Os efeitos colaterais? Ninguém sabe!
  • A taxa de cura? Ninguém sabe!
O que se sabe mesmo é que o laboratório onde esse placebo era fabricado não tinha capacidade para tamanha demanda. O local onde a pílula milagrosa era feita ficava dentro do Instituto de Química de São Carlos (SP), um laboratório que apresenta sérias restrições orçamentárias em suas instalações (afinal, o laboratório – além da pouca verba disponível – não foi feito para ser uma fábrica de remédio) e fotos divulgadas pelo Jornal da USP, em sua edição de dezembro de 2015 (página 11), mostram que a falta de higiene e de assepsia torna a substância inapta para o consumo.   


Laboratório de Química de São Carlos não possui instalações para a fabricação de remédio! (foto: Reprodução/Jornal da USP)

Ciência baseada em relatos
Como as únicas provas de que seu medicamento realmente funciona são relatos, separamos aqui alguns relatos provando o contrário:

Segundo apurado pelo jornal Zero Hora, em abril de 2016, apenas no Rio Grande do Sul foram 10 pacientes com câncer autorizados pela Justiça a receber a fosfoetanolamina. Dos que chegaram a receber o composto, apenas um paciente afirmou “estar se sentindo melhor” (o que não significa que a doença foi curada), um paciente diz que “nem melhorou e nem piorou” e 3 doentes morreram mesmo tomando a pílula!   
  
Resultados dos testes
Após diversos testes realizados com a fosfoetanolamina sintética pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que você pode acompanhar resumidamente aqui, aqui e aqui, foram feitas descobertas interessantes e desanimadoras:
  •  Menos fosfoetanolamina do que se afirmava
De acordo com os primeiros testes realizados, o grau de pureza da fosfoetanolamina no composto é de apenas 17%, bem abaixo dos 95% alardeado pelo criador da “pílula do câncer”. Abaixo, um trecho do relatório fornecido pelo MTCI:
“Neste dossiê foi demonstrado que, a ‘fosfoetanolamina sintética’ produzida pelo Sr. Salvador Claro Neto possui 16,9% fosfoetanolamina, 37,5% de monoetanolamina e 45,6% do sal de fosfoetanolamina. Mais recentemente, os professores Dr. Luiz Carlos Dias da Unicamp e Dr. Eliezer Barreiro da UFRJ, demonstraram que nas mesmas amostras de ‘fosfoetanolamina’ produzida pelo Sr. Salvador Claro Neto, há proporções diferentes dos compostos mencionados acima sendo 32,2% de fosfoetanolamina, 18,2% monoetanolamina, 3,9% fosfobisetanolamina, 38,5% de fosfatos e 7,2% de água.”
  • A fosfoetanolamina não combate o câncer
A principal função alegada pelos criadores do “remédio” era a de que ele acabaria com câncer, mas diversos testes mostraram que a fosfoetanolamina é ineficaz para essa doença. Em testes mais recentes – dessa vez em camundongos – , o MTCI concluiu que o composto chamado de “pílula do câncer” não inibe o aumento do câncer. Os testes foram feitos também em uma linhagem de ratos que possuem um sistema imunológico deficitário e a ingestão desse composto não ajudou em seus metabolismos. Com essa constatação, cai por terra outra alegação do criador da fosfoetanolamina sintética, que disse em entrevistas (após várias comprovações de que o seu medicamento é ineficiente) que a “fosfo” funcionaria ajudando o organismo a melhorar o sistema imunológico do paciente!
  •  Mesmo em altas doses funciona pouco
Os testes que foram realizados pelo Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clinicos (CIEnP) a pedido do MTCI mostraram que o uso dessa substância reduziu em 34% o tamanho de um tipo de câncer de pele em camundongos, mas a dose aplicada aos animais foi mais do que o dobro da dose sugerida pelo pesquisador da USP São Carlos (não se sabe ainda quais os efeitos colaterais que altas doses dessa substância podem causar).

Além disso, mesmo sendo aplicada em altas doses, a eficácia do composto foi bem menor do que a da cisplatina, um dos compostos utilizados para o tratamento do câncer atualmente. Segundo o CIEnP, os animais que receberam cisplatina tiveram redução de 68% do tumor após o tratamento.

Os testes comprovaram quem o composto não tem nenhuma ação em outros tipos de câncer!

Conclusão
Infelizmente, todos os testes realizados com a fosfoetanolamina comprovam o que já havíamos mencionado em setembro de 2015: A pílula do câncer não apresentou nenhuma eficácia contra o câncer!

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