segunda-feira, 8 de setembro de 2014

NÃO DESISTIMOS DO BRASIL, MAS CANSAMOS

Luiz Fernando Verissimo escreveu uma crônica defendendo que o 7 x 1, com que a Alemanha abateu o Brasil na Copa do Mundo, não existiu. Ou existiu num universo à parte, postulando que a CBF deveria pedir a anulação do jogo e sua repetição no mundo real. A Nuvem Letícia, sorrindo, observou ter sido um erro de ótica. As bolas não entravam em nossa trave, saíam , pois até elas estavam envergonhadas.

Quantas coisas gostaríamos que nunca tivessem existido, começando por esta Copa, ou pela construção de estádios, verdadeiros elefantes brancos em lugares distantes, prestes a serem abandonados. Gostaríamos que não fosse extraviado tanto dinheiro público, que serviria para a educação, saúde ou cultura.

Gostaríamos que a Petrobras não realizasse a compra de Pasadena, no Texas, que foi péssimo negócio para o país e bom para alguns, e houvesse justiça, não ocultamento. E talvez tenha Verissimo razão: é melhor fingir que o 7 X 1 não tivesse havido.

E muito menos a trágica morte de Eduardo Campos, num acidente até agora não explicado, estando alguns mais preocupados com a origem do avião, do que com a forma estranha com que ele explodiu nos ares.

Gostaríamos que não existissem certos políticos mensaleiros e outros rinocerontes da coisa pública. Nem gostaríamos que a Presidência indicasse os ministros por motivos óbvios e visíveis. E, numa espécie de esquecimento coletivo, não houvesse Lula, ou esquecesse de existir e continuasse um meritório torneiro-mecânico, sem estar cercado de tanta riqueza contra a qual ele lutou; muito menos Dilma (que ficasse na sua loja de Porto Alegre que dizem que faliu, para não falir o Brasil), com os tais de trinta e tantos ministérios, como pedras um batendo noutro, em carambola.

E se não tivéssemos tanta indignação, tanto dano e os craques voltassem ao tempo dos que tinham arte e não precisavam ser milionários, preferiam a honra de ganhar, suando a camiseta. E de fato a memória coletiva está envenenada e nem as eleições nos tirarão do choque de realidade, o baque do desastre que nos impuseram.

O naufrágio foi tamanho em nossas mentes, com a crescente e incontornável inflação, que não nos resignamos, não podemos nos resignar com tanta mediocridade, ao lado de tamanha propaganda. E cansamos de ser enganados, cansamos da derrota e do fracasso, cansamos de suportar a corrupção organizada, cansamos de ver a ordem e o progresso desaparecendo. E, como diz o cronista gaúcho, quantas gerações levaremos para engolir o 7 x 1?

Cansamos de ver a cultura banalizada. Estivemos na Bienal em São Paulo e vimos naquele labirinto de barracas a maioria vendendo livros de autoajuda, livros esotéricos e de super-heróis, pouca literatura de nível. Cansamos de ver a cultura sendo posta abaixo, sem respeito à inteligência dos leitores e telespectadores, cansamos da fraqueza do ensino, da falta de boa leitura e do mau tratamento aos professores.

“Não desistimos do Brasil”, mas cansamos de ser brasileiros.

Carlos Nejar

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